terça-feira, 15 de março de 2011

Nascimento


Quando fui convidada a escrever sobre o assunto ‘nascimento’, pensei em falar sobre a entrada dos seres humanos nesse mundo, a expectativa que este acontecimento gera na família e coisas tais. Mas isso me fez pensar justamente na importância que tem a boa expectativa, com relação à chegada dos bebês, que deveriam sempre ser desejados e bem cuidados. Sabemos que, por infinitas razões,a realidade não é bem esta. E, por outro lado, eu compreendo e respeito a decisão das pessoas que decidem não ter filhos. Os filhos, de fato, dão trabalho e geralmente impõem sacrifícios aos pais. Há pessoas que não deveriam mesmo ter filhos, seja em razão dos próprios interesses ou limitações, ou pelo bem da humanidade.
Com tudo isso, porém, eu não compreendo uma pessoa como a psicanalista Corinne Maier que, sendo mãe, se deu ao trabalho de escrever um livro onde lista 40 Razões Para Não se Ter Filhos (que, aliás, é o nome da obra). Para ser sincera, eu não cheguei a ler este livro (nem pretendo, pois o título é por demais autoexplicativo, rsrs). Mas as resenhas dele, lidas em muitas mídias, e as controvérsias que ele gerou na época do lançamento me fizeram saber que esta senhora acha que (com as próprias palavras dela):

01) As crianças são o inferno
02) Os filhos arruínam as mães
03) Uma mulher com filhos não pode ter uma carreira
04) Também não pode se divertir nem ter vida afetiva e sexual
05) Filhos são parasitas
E vai por aí até chegar à 40ª.

É um livro tão provocativo, e a autora parece tão afeita às controvérsias, que eu simplesmente não o mencionaria, chamando a atenção para esta obra caça-níqueis, não fosse o fato de terem vindo a público um bando de gente igualmente equivocada (ou de má fé) que, ecoando as argumentações do livro, tenta impor os próprios pontos de vista. Chamo essa gente de equivocada ou de má fé porque, como eu disse acima, ter ou não filhos é decisão de foro íntimo, que deve ser respeitada pelos outros.
Mas vir a público proclamar sandices como: “Com filhos você vai passar noites acordada e não será na balada e sim ouvindo choro” é algo que açoita o meu raciocínio e sensibilidade e, diante disso, a vontade que tenho é de dizer a essa pessoa: "Você tem razão, se a sua mãe tivesse pensando como você, eu agora estaria livre de ouvir/ler o que você está dizendo”, rsrs.


(Blogagem Proposta pelo Blog Espiritual Idade: http://espiritual-idade.blogspot.com/)

terça-feira, 8 de março de 2011

O Bom, o Mau e o Feio (The Good, the Bad and the Ugly), ou uma das muitas belezas que a vida me ofereceu.

Meu pai era fanático por faroestes e e séries de TV relacionadas a cowboys e fazendeiros. Acho que isso se devia à infância dele, vivida em fazendas. Ele também se identificava com os forasteiros, que deixam as suas raízes para irem em busca de progresso pessoal e aventura, em lugares ainda por desbravar. O espírito aventureiro e destemido, aliás, era peculiaridade de meu pai, que deixou a vida cômoda e conhecida, para participar, desde o início, da epópeia da construção da nova capital do Brasil.
Na minha infância e juventude, quando os filmes de faroeste eram exibidos na TV, nós filhos sabíamos que o canal não podia ser mudado. Nessas ocasiões, eu geralmente me retirava da sala e ia ler um livro, ou fazer outra coisa, pois embora nunca tivesse assistido sequer a um filme desses inteiro, não me agradava a violência que permeava as estórias; nem as pessoas brutas e empoeiradas que eram as personagens delas.
Mas, eis que um dia, passando diante da porta da sala, enquanto meu pai prestava o seu culto semanal aos cowboys do Velho Oeste, rsrs, ouvi uma música muito linda, que em seguida descobri ser a trilha sonora do filme que ele assistia. Era ‘Il Trillo’, de Ennio Morricone, que foi consagrada posteriormente como “The Good, The Bad and de Ugly”, nome norte-americano do filme ‘ Il Buono, il Brutto, il Cattivo’, do italiano Sérgio Leone, estrelado por Clint Eastwood.
Achei a música extraordinária e dali pra frente passaria a associar cada nota dela à ação do filme: as disputas entre Eastwood ‘Loirinho’ e os dois outros bandoleiros: Tuco e Angel Eyes. Loirinho seria o Bom, Angel Eyes, o Mau, e Tuco, o Feio. Na verdade, nenhum dos três era realmente bom e Eastwood/'Loirinho' era o mais bonito deles, rsrs. Mas isso não tinha importância; importante era a gente ir assistindo e intuindo, por causa da agitação que ia nos tomando, que estava diante de uma obra genial, que estaria conosco para sempre.
Quando eu fiquei mais madura e pude acompanhar com mais atenção à carreira de Clint Eastwood, me ocorreu que os acasos da vida já devem ser previamente determinados, para algumas pessoas. Só isso explica o fato de alguém como Clint Eastwood ter tomado parte de um projeto cinematográfico que à época, devia parecer uma bobagem, para um ator norte-americano. Refiro-me aos filmes ‘Spaghetti Western’, gênero no qual embarcou Sérgio Leone. Mas o tempo fez com que alguns daqueles filmes – este entre eles - viessem a ser considerados obras primas. Uma coisa é certa, a música/tema de Ennio Morricone é de fazer qualquer um arrepiar; beleza em estado puro!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Filme: “Um amor verdadeiro” (One true thing)/As lições que o cinema nos dá – vol I




(atenção: ‘spoiler’, texto com revelações sobre o enredo do filme acima)

Eu estava (estou) com um post praticamente pronto, sobre as aspirações femininas, versus obrigações domésticas, e pensava mesmo em terminá-lo hoje, já que este blog está parado há mais de um mês (cruzes!), quando vi, na noite passada (no momento em que me deitei), um pedacinho do filme ‘Um amor verdadeiro’ (One True Thing), que estava sendo exibido na TV. Já era mais de meia noite e eu tinha de acordar bem cedo, portanto, tive de deixar o filme prá lá. Mas fiz isso com pesar; e só consegui desligar a TV depois de assistir a uma boa meia hora da película. Porém, a minha opção pelo assunto a ser abordado no post de hoje se transferiu, automaticamente, para o filme.
‘Um amor verdadeiro’ (por que traduziram o título assim, é um mistério para mim!) não é bem um filme novo (foi lançado em 1998), e eu já o tinha visto antes. Mas o considero tão bom, que não posso deixar de voltar a o assistir, se as suas imagens me são apresentadas.
O que esse filme tem de mais extraordinário, em minha opinião, é a capacidade de tratar de assuntos sérios e profundos, de forma aparentemente despretensiosa. Ele é estrelado por Meryl Streep que, soberbamente, contracena com William Hurt (em ótima atuação) e uma jovem Renée Zewellger (que apesar das críticas, também desempenhou muito bem o seu papel).
Eu poderia dizer – como muitos já o fizeram – que o filme conta a estória de uma moça que, forçada a abandonar a própria carreira para cuidar da mãe doente, vê mudarem os seus pontos de vista sobre a família (e sobre a vida!).
Todavia, apesar de ser exatamente assim, o filme mostra mesmo é como o processo de crescimento de um ser humano pode ser complexo e doloroso. Ou como a vida é - quase sempre - uma trajetória difícil. Ellen Gulden, a personagem de Zellweger, é uma jornalista, em início de carreira, que ambiciona fazer logo uma reputação entre os seus pares. Ela se vê como uma pessoa muito superior à própria mãe, que ela julga limitada. Ellen acha que é com o pai que tem afinidades, por ele ser um homem voltado para as coisas do intelecto: professor de literatura e escritor (embora de pouca expressão); e também alguém que ela acha mais sábio do que a mãe.
Para Ellen, Kate Gulden, sua mãe, é quase uma caricatura, com a sua' fútil’ determinação em ser a perfeita dona de casa (enquanto dá pueris festas à fantasia, e, juntamente com as amigas - que Ellen também considera folclóricas - faz minuciosos trabalhos manuais, principalmente ornamentos para as árvores de Natal). E aí, como sói acontecer sempre (pois “a mudança é a lei da vida”, conforme nos atestam os aforismos do Orkut), o mundo de Ellen sofre uma brusca transformação; ou, como costuma dizer o povo, “é posto de cabeça para baixo”. E tudo por conta da doença que acomete a mãe.
Sim, porque, quando Kate Gulden é diagnosticada como portadora de um câncer (que acaba por matá-la), George Gulden, o charmoso e inteligente pai de Ellen, determina que a filha se afaste do seu mundo (emprego, namorado e até do próprio apartamento, pois ela mora em outra cidade), para cuidar da mãe.
E é aí que os fatos reais da vida começam a se mostrar para Ellen. Ela vê então, depois de haver se submetido por alguns dias ao estafante trabalho doméstico, o quanto a mãe é – na verdade - abnegada e amorosa. E o quanto o pai é uma pessoa diferente do que ela supunha: um tanto egoísta e ... sim, fútil. A mãe se lhe aparenta tão incrivelmente capaz de sacrifícios, que ela lhe pergunta:
“Como é que você suporta tudo isso, dia após dia?”. E a mãe serenamente responde: “Mas esse trabalho é necessário a vocês, minha família, pessoas que me foram dadas para amar nesse mundo!”. E o pai, de quem são gradativamente mostradas as fraquezas e os enganos, não é tido, por isso, em menor conta pela mãe (que parece sempre ter sabido delas), mas passa a ser depreciado (e até hostilizado) pela filha!!. Também quanto ao namorado a percepção de Ellen se amplia, fato que não pode deixar de ter consequências.
Enfim, este é um desses filmes comoventes, feito para ensinar e fazer refletir. É também - sem dúvida - uma tentativa de definir o amor verdadeiro. Huuumm, pensando bem, a tradução do nome para o português é bem pertinente!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Bob Dylan


Minha irmã me mandou e-mail, com a música de Bob Dylan, ‘Blowing in the wind’, dizendo que o mesmo despertara nela saudades de anos atrás, época em que descobrimos Dylan. Ela falou também da importância que o poeta/cantor passou a ter para nós, a partir de então. Recordações dos velhos tempos!
No ano passado, Bob Dylan esteve no Brasil, onde se apresentou no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eu não quis ir vê-lo. Primeiramente porque os ingressos custavam os olhos da cara. E depois, porque eu tinha medo de que a magia ligada à pessoa de Dylan, em minha mente, se desfizesse, caso eu me visse frente a ele.
Eu já ouvi mais de vinte vezes, seguidamente, uma mesma música de Dylan. Na verdade, eu já ouvi umas duas ou três músicas dele, tocar seguidamente, vinte ou trinta vezes. Isso acontece, geralmente, quando vou fazer alguma trabalho 'automático' e 'mecânico', ouvindo o meu headfone. Aos primeiros acordes de músicas como Lay lady lay; Like a Rolling Stones ou Mr Tambourine Man, o meu dedo aperta automaticamente a tecla ‘repeat”, e eu fico ouvindo-a até cansar. Nesses momentos, passa pela minha mente pensamentos sobre o alcance da arte e reflexões sobre o talento de artistas como Bob Dylan.
Não faz muito tempo eu assisti ao filme “Eu não estou lá” (I’m not there), que conta, por assim dizer, a vida de Dylan, que é representado nele, por umas cinco ou seis pessoas. A idéia de usar cinco ou seis atores (inclusive uma mulher) para representar uma única pessoa, que no caso é o cantor, pode parecer maluca para alguém, mas faz todo o sentido se a pessoa representada é múltipla, como Bob Dylan.
Na verdade, todos nós somos mais de um, dado que todos sofremos transformações ao longo da vida. Mas, no caso de Dylan, é algo mais do que apropriado, uma vez que ele parece ser a própria metamorfose ambulante. Aliás, o nome do filme, "Eu não estou lá", faz referência a uma canção de Dylan que não teria sido lançada. Mas também se refere à fórmula do poeta francês, Arthur Rimbaud: "Eu é um outro", em cuja fonte Dylan também bebeu. Aliás, até mesmo o nome "Dylan", o cantor (cujo nome real é Robert Allen Zimmerman), tomou de empréstimo de outro trovador, o poeta Dylan Thomas. Também achei especialmente oportuna no filme, a exibição das fraquezas e contradições do artista, nuances presentes em todos os seres humanos e que também os define. Adorei o episódio em que ele se envolve num imbróglio com a esposa e outras pessoas, por proferir (de modo quase inconsciente) duas ou três frases carregadas de misoginia, coisa que exaspera a mulher, bem como os outros presentes. Acho também interessante o fato de a música de Bob Dylan açambarcar estilos tão variados e diferentes, como o folk e o rock, para citar só dois deles. E o mais interessante ainda, é percepção de que certas músicas talvez só sejam atraentes por terem vindo dele, por carregarem em si, um pouco da essência do artista. Quero dizer que não estou certa de que gostaria igualmente, por exemplo, da música ‘Like a Rolling Stone’, se ela fosse cantada em português. Penso que ela me pareceria por demais brega, como um brado de repreensão masculina contra uma mulher outrora exuberante e bem de vida; algo bem aos estilo dos sertanejos, que é um gênero ao qual faço restrições. Mas Bob Dylan é Bob Dylan!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Os livros de 2009 e...

Desde o início do ano venho tendo a impressão de que fui posta num espaço paralelo, onde o tempo corre em escala diferente, muito mais acelerada. A despeito disso (ou por causa, disso!), tudo para mim vem se arrastando lenta e confusamente. Foi dentro dessas circunstâncias que consegui ler os livros acima. É bem menos do que eu havia programado em minhas resoluções de ano novo. Mas, de um jeito estranho, é um número satisfatório, se considero as dificuldades que têm se interposto entre os livros e eu. Os nomes são os seguintes:

1 - Quando Nietzsche Chorou - Irvin D. Yalom
2 - A Cura de Schopenhauer - Irvin D. Yalom
3 - Banquete Com os Deuses - Luís Fernando Veríssimo
4 - A Vida é Bárbara - Luís Fernando Veríssimo
5 - A Montanha Mágica - Thomas Mann
6 - Não Caia da Montanha (autobiografia) - Shirley MacLaine
7 - O Relatório de Brodie - Jorge Luís Borges
8 - Pergunte ao Pó - John Fante
9 - Dom Casmurro (releitura) - Machado de Assis
10- O Pai - Dirce de Assis Cavalcanti
11 - O Amor é um Cão dos Diabos - Charles Bukowski
12 - Memórias da Casa dos Mortos (releitura) - F. M. Dostoiévski
13 - Um Gosto e Seis Vinténs - William Somerset Maugham
14 - Mandrake, a Bíblia e a bengala - Rubem Fonseca

O 'A Montanha Mágica', de Thomas Mann, ainda estou a ler. Mas, nas fotos faltam uns cinco ou seis livros que foram emprestados, ou se tornaram invisíveis, na desordem reinante em minhas estantes. Entre os que faltam, figuram o 'Uma breve história do tempo', de Stephen Hawking; o 'Contos e Poemas Para Crianças Extremamente Inteligentes (de todas as idades)', de Harold Bloom; e o 'Viagens na Minha Terra' , de Almeida Garrett, que são os que me vêm à memória no momento.
Os livros que me deixaram um tantinho reticente, ao fim da leitura, foram os dois de Irvin D. Yalom: 'Quando Nietzsche Chorou' e 'A cura de Schopenhauer'. Ambos têm estórias envolventes e são algo instrutivos, no que se refere às vidas dos filósofos apresentados (e também quanto aos processos psicanalíticos, pois o autor é psiquiatra). Contudo, a meu ver, Yalom simplifica demais as personalidades abordadas; as transforma em outras pessoas, de certo modo. Duas criaturas complexas como Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche (ambos unidos e desunidos por suas idéias), são elevados à categoria de divinos, de donos de sabedorias sobre-humanas.
Eu sempre fico de pé atrás, com relação às idéias de Nietzsche. Acho que ele mistura conceitos revolucionários com princípios que, se postos em prática, inviabilizariam a vida, uma vez que a liberdade irrestrita não é possível neste mundo (sobretudo quando a liberdade de que se fala é a da entrega aos prazeres!).
Outra contradição de Nietzsche (entre inúmeras outras) é que ele nega, por assim dizer, a parte espiritual da vida, quando esta se relaciona com alguma coisa superior, algo ligado ao sacrifício e à renúncia; mas não o faz quando se trata dos prazeres. A prova disso é que cultuava o deus pagão Dionísio, a quem veio a "incoporar", no fim da vida, quando se apresentava como o próprio!
Para mim, o problema com as premissas de Nietzsche é que ele parece ter chegado a elas, desconsiderando as implicações das mesmas. Em Nietzsche tudo é contudente e radical, mas se a gente o lê com o cuidado suficiente, percebe a vacuidade, quanto ao que seriam os desdobramentos resultantes dos postulados dele.

sábado, 18 de julho de 2009

Rabiscos em cadernos de notas explicam o sofrimento?


Bem, a consciência de que o blog está abandonado me tem perturbado. Comentei isso com alguém daqui, e a pessoa retrucou: “Ué, mas é qual a razão disso? Você tem um montão de cadernos com coisas escritas; pega qualquer um deles e publica o que estiver escrito, uai!
Eu disse pra mim mesma: “Taí, em vez de escrever texto novo, transcreverei os já escritos!”. E para começar do princípio, saquei duma sacola (que, com o seu conteúdo, quase fora jogada no lixo), um dos meus antigos cadernos de anotações, que lá se encontrava.
E o que leio nele? Notas avulsas; impressões sobre trechos de leituras; aforismos; premissas filosóficas e religiosas, e o escambáu. Diante disso, o meu primeiro pensamento foi: Ah, é impossível transformar uma barafunda dessas em algo compreensível! O que se pode fazer com isso, por exemplo?
"Isso" eram os seguintes comentários sobre o “De Profundis”, de Oscar Wilde, que eu lia então: Como todos, Wilde se vergou à pressão do sofrimento. E também se transformou a partir dele. A relação cintilante e ruidosa com Bosie (Lord Alfred Douglas, outrora seu amante e causa da sua prisão), se converteu em amarga desilusão.

E complementei: já aqui, na introdução da carta (De Profundis é uma carta dirigida a Bosie, escrita quando Wilde se achava preso; mas é também o relato das ponderações do escritor a respeito de sua própria vida e do revés que lhe sobreveio), Wilde chama a “amizade” que o uniu a Bosie de “desgraçada” e “lamentabilíssima”.

E consciente de que Bosie necessitava – muito mais do que ele mesmo – de uma boa dose de tribulação e desapontamento, para examinar o próprio interior e conhecer as inclinações do próprio coração, Wilde diz: “Deves ler esta carta até o final, ainda que cada palavra tenha de ser para ti como o cautério ou o bisturi do cirurgião que queima ou sangra as carnes delicadas”.

Desenhei uma seta direcionada ao texto acima, depois da frase de Antoine de Saint-Exupéry: “Abençoado ferimento que te faz parir de ti próprio”.
E mais adiante, anotei: “Wilde compreendeu bem o papel do sofrimento nas vidas humanas, pois acabou por escrever: “Onde há sofrimento há terreno sagrado”.

Muitas páginas à frente, encontrei breve resumo da vida de Sir Walter Raleigh, um homem que viveu entre os séculos dezesseis e dezessete, e atingiu os píncaros da glória como explorador enviado a desbravar e se apossar do ‘Novo Mundo’, pela monarquia inglesa. Anos depois, porém, Sir Raleigh se viu aprisionado e condenado à morte pela mesma monarquia, após uma tremenda virada da sorte. Durante o seu encarceramento, enquanto aguardava a execução, Sir Raleigh, que fora um homem muito rico, escreveu as seguintes palavras à esposa, Bess Throckmorton: “Entretanto, se puderes viver livre de necessidades, não ambiciones mais, pois o resto é apenas vaidade”.

E, em outro caderno, já com data bem mais recente, encontrei a frase da atriz Charlotte Rampling que, segundo consta, se acha no livro de entrevistas, “Entre Aspas” , de Fernando Eichenberg:
“Durante toda a vida há catalisadores. Há momentos chaves que fazem com que você mergulhe completamente em abismos ou em que você vai poder se reconhecer diferentemente por meio de imensos sofrimentos. E, quando atravessamos esses sofrimentos as alegrias são muito maiores, muito mais inteiras e também muito mais válidas. Penso que o percurso de uma vida é feita disso; desses momentos”.

Perceberam o padrão? Notaram que todos os textos tratam do sofrimento humano? E não são os únicos. Há informações sobre o pós-desastre sofrido pelo ator Christopher Reeve, extraídas de entrevista dada pelo mesmo a uma revista. E também trechos da vida do produtor de filmes Robert Evans, mostrados no filme ‘O Show não pode parar’; e excertos da autobiografia de Ali Mac Graw, ex- esposa de Evans (bem como de Steve McQueen), em que ela se refere, também, aos reveses que sofreu, após os anos esplendorosos de fama e poder em Hollywood, etc.

Encimando todos os trechos, grafei a palavra ‘tribulação’. A razão da compilação deles é a minha eterna busca de compreensão dos altos e baixos da vida. Seria tudo casual, como pensam alguns? Viver é sofrer, como achava Schopenhauer?
Certamente que não!Os próprios citados acima experimentaram, como todos sabemos, e muitíssimo mais do que os mortais comuns, as delícias e glórias da vida.

Deixando, porém, as grandes indagações sobre o sofrimento para a reflexão dos filósofos e místicos, e meditando objetivamente sobre aqueles que nos acometem, constatamos que são principalmente de dois tipos: os que os outros nos infligem injustamente, que quase sempre decorrem de mal entendidos e falhas humanas, podendo ser terríveis mas, que em nossas vidinhas vulgares são muito menos freqüentes.
E os criados por nós mesmos, devido à nossa ignorância e imaturidade (esses são os mais comuns).
De qualquer modo, os que pararam para refletir no próprio sofrimento concluíram - como o salmista* -, que a função dele é mudar os homens para melhor. Deve ter sido essa a razão de Dostoiévski ter afirmado: “O meu único temor é o de não ser digno do meu próprio sofrimento”.

*Palavras do salmista: “Foi-me bom ter sido afligido, pois antes de ser afligido eu me extraviava”. (Salmo 119 versos 67 e 71).

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nós e os cães

Ter um animal, qualquer animal, dá trabalho e despesa, como se sabe. Ter um cãozinho (como esse da foto), como animal de estimação, exige tudo isso e um pouco mais. Essa da foto é a Dorothy, uma poodle de quase dez anos. Ela foi dada à minha filha mais nova, em seu aniversário de seis anos, quando a cadelinha tinha poucos dias de vida. A menina, hoje com quinze anos, continua amando-a, como no dia em que a recebeu. Mas sou eu quem cuida dela.
Quem tem um animalzinho desses não fica - certamente - refletindo sobre ele e muito menos sobre o trabalho que o bicho dá. Os donos de animais - salvo infaustas exceções - acolhem-nos, como se acolhem os filhos: felizes por terem encontrado a quem amar! Mas que esses bichinhos dão trabalho, ah isso dão! Ainda há pouco, essa verdade me veio à mente, quando vi o meu marido arrancando os carrapichos que se prenderam aos pelos e à roupa da Dorothy (sim ela está metida num agasalho porque o tempo está frio e o pêlo dela baixo, por ter sido tosado).
Eu tinha visto que ela estava cheia de carrapichos, pois foi na hora em que eu fui molhar as plantas, que ela - como sempre - se embrenhou no meio delas, à caça dos gatos que se hospedam em nosso quintal. Mas estando eu já um pouco atrasada, para o preparo do almoço, deixei para resolver o problema dos carrapichos num momento mais oportuno.
Nisso, meu marido chegou, almoçou e se apercebeu do aspecto eriçado e "carrapichoso" da cadela, pois ela se deita ao lado dele, na hora dessa refeição. Então ele a pôs no colo e foi tirando as sementinhas e as depositando no assento de um banco, que estava próximo a eles. Eu fui limpar o banco e pude ver a nuvem de pontos pretos, onde se contava mais de cem. Meu marido quase se atrasou, no seu retorno ao trabalho, por conta dessa tarefa; mas deixou a cadela limpa novamente!
No que diz respeito à Dorothy, uma questão, como essa, dos carrapichos, é de somenos importância! Pior são as chantagens emocionais, feitas quando a gente a deixa só (sempre por apenas poucas horas!). Ser deixada só a chateia imensamente! E ela expressa a chateação, geralmente, vomitando em cima do sofá (ou num local difícil de achar!). Nós, naturalmente, não facilitamos mais essa manha e, quando saímos, a tiramos de dentro de casa.
Mas quem realmente se importa com tais coisas, se o contraponto para tudo isso é o recebimento de amor incondicional? Lembrei-me, agora, das palavras de Giuseppe de Lampedusa sobre Bendicò, o cão do príncipe de Salina (o alter-ego do próprio Lampedusa, no romance O Leopardo): "Bendicò era dono de deliciosa estupidez", diz o príncipe. Ele profere essas palavras quando faz o balanço de sua vida, após ter sido acometido por doença incurável. Ele diz então, que, tendo chegado aos setenta e três anos, constata só ter vivido (leia-se: sido feliz) por três anos. E a que ele atribui a felicidade fruída? Aos cães (por grande parte dela!).
Há no livro um trecho que ilustra a "deliciosa estupidez" de Bendicò, o qual transcrevo abaixo (advertindo antes, que o dono e o cão se encontravam no jardim da casa):

"Estava ele ali, inerte, sentado num banco, contemplando a devastação que Bendicò ia fazendo nos canteiros. De vez em quando, o cão levantava os olhos inocentes para ele, como que pedindo um louvor pelo trabalho realizado: catorze cravos despedaçados, meia sebe arrancada, um rego obstruído...
- Chega, Bendicò, venha cá.
O animal acorria e pousava-lhe na mão o focinho sujo de terra, ansioso por mostrar-lhe que a tola interrupção do belo trabalho cumprido lhe havia sido perdoada”.

O amor do príncipe pelos cães era tanto, que em sua avaliação final ele os nomeia individualmente: Fufi, a enorme mops de sua infância; Tom, o impetuoso cão d'água; Svelto, o de olhos mansos; Bendicò (o já descrito "estúpido"); e Pop, aquele que seria o seu último cão (e que o estaria procurando e ansiosamente aguardando, enquanto ele fazia tratamento de saúde em outra cidade).
A literatura é pródiga na citação de animais de estimação, principalmente cães. Isso não me surpreende, uma vez que eu mesma sou amante desses animais. Além das inúmeras menções aos cães, em livros, e da existência de romances em que eles são os personagens principais, há as estórias reais, nas quais eles estão presentes, que de algum modo, chegaram ao conhecimento público.
Lembrei-me, nesse instante, de ter lido uma antiga estória, sobre o magnata norte-americano, da imprensa, James G. Bennett, que nos dá conta da ligação que ele teve com esses animais. Dizia a narrativa que G. Bennet tinha um correspondente do seu jornal em Londres, o qual tencionava destituir do cargo, por não estar muito satisfeito com o trabalho dele. Mas sendo um homem justo, o magnata aproveitou uma visita que fazia a Paris, e chamou o empregado para uma entrevista, a fim de tirar a limpo a suas impressões.
Ocorre que Bennet gostava imensamente de cães, dos quais vivia cercado. O correspondente, tomando conhecimento disso, foi se encontrar com o patrão munido de um pequeno pedaço de fígado e um pouco de erva doce metidos no bolso (vê-se que eram tempos anteriores ao uso das rações, na alimentação dos cães!).
Bennett fez com que o homem o esperasse, por uma hora, na sala de estar de seu apartamento, antes de surgir rodeado de seus cães. Esses avançaram amistosamente sobre o correspondente, sacudindo as caudas e lambendo-lhe as mãos. Bennett abriu um grande sorriso de simpatia e, em vez de demitir o empregado, deu-lhe uma semana de férias em Paris, e um aumento de salário. Tudo isso porque, segundo o modo de pensar de Bennett, um homem de quem os cães gostavam não podia ter defeitos graves!
Eu - devo confessar - já senti vontade de esganar a Dorothy, nesses nossos anos de convivência. Uma dessas vezes foi quando ela vomitou num montão de roupa, recém-lavada, que eu havia posto sobre a cômoda do quarto 'de passar'. Lembro-me de ter sentido o cheirinho do amaciante nas roupas, no momento em que a minha cabeça roçou nelas, enquanto eu as recolhia do varal. Quando vomitou, Dorothy 'escavou' no meio dos panos, de modo que a sujeira atingiu todas as peças. E é claro que isso aconteceu numa estação chuvosa, num dia em que eu, aproveitando um breve estio e com muita trabalheira, consegui, gloriosamente, que toda a roupa suja acumulada fosse lavada e secada, sob um sol débil.
A outra vez em que a Dorothy 'aprontou' de verdade, foi quando destruiu a plantação de onze-horas que eu cultivava num grande vaso, a qual me exigira semanas de esforço e tempo.
Mas há, é claro, o lado bom. Dorothy (e creio que isso acontece com todos os cães de estimação, com relação aos seus donos) já deixou mais que provado que nos ama! Quem no mundo conseguiria demonstrar tanto contentamento à nossa simples chegada? Quem demonstraria tanto pesar à nossa partida (ainda que estejamos indo apenas até o supermercado da esquina)? Ou quem se devotaria a nós, tão completamente? Por conviver mais comigo, ela é também mais apegada a mim. Isso significa estar sempre ao meu lado, mesmo que eu esteja, há horas, lendo no banheiro, antes de tomar o meu banho (e ela cochilando no tapetinho, do lado de fora da porta). E pode significar também, ficar deitada perto de mim na cozinha, altas horas da noite, quando o restante da família há muito, ressona. Isso acontece, por exemplo, quando preparo um prato que exige ações antecipadas; ou finalizo um bolo que servirei no dia seguinte, numa festa familiar qualquer. E a lealdade? Ela é leal a todos nós. E a um ponto, que é capaz de avançar contra nós mesmos, se nos vê fazer gestos ameaçadores, uns contra os outros.
Mas, do que gosto mais na Dorothy, no entanto, é da doçura que ela tem no olhar. E daquele ar de contentamento, quando estamos próximos; algo tão real, que já me fez mostrá-la ao meu marido e perguntar: "diga-me: ela está rindo ou não?". Outra coisa de que gosto muito, é vê-la correr ao nosso encontro, quando a chamamos. Nosso quintal é grande e vê-la cruzá-lo, às carreiras, uma bolinha de pelo ondulante, com as orelhas agitando-se ao vento, saltitante como um carneirinho, é uma visão enternecedora. Nesses momentos ela deixa de ser a "Dorothéa", nome com que a chamo quando ela me aborrece, e passa a ser "Dodô", a bebezinha da família!