
Mas, já ali, eu fui intuindo que aquelas divagações não podiam ser gratuitas. E um tantinho mais adiante, confirmei que as incursões do autor pelos escaninhos da mente e da alma humana (realizadas ao longo de toda a obra) constituiriam a coluna dorsal dela.
E linha após linha, eu ia desvendando a rica personalidade de Proust, revelada em sua erudição, sua complexidade, sua capacidade de perceber os processos psicológicos das pessoas à volta, e, sobretudo, sua habilidade em apreender o sentido das coisas da vida, e traduzi-lo em palavras. A conseqüência disso foi experimentar o que se convencionou chamar de ‘a magia da literatura’, que o que se dá, quando nos defrontamos com reflexões e pensamentos que expressam as nossas próprias opiniões, as quais jamais saberíamos expor com tanta maestria. Mas nem disso podemos nos envaidecer pois, páginas à frente, o próprio escritor o diz:
"Na realidade, todo leitor, quando lê, é o leitor de si mesmo. A obra do escritor não passa de uma espécie de instrumento óptico que ele oferece ao leitor a fim de permitir que este distinga aquilo que, sem o livro, talvez não pudesse ver em si mesmo."
Aliás, no quesito 'frases de efeito' Proust é um mestre. Seja lá qual for o assunto, é possível achar uma reflexão dele sobre o mesmo
.
E, no “Em busca...” há, é claro, a estória em si. Esta me aturdiu, nos lances das súbitas revelações. Mas, simultaneamente, me gratificou, na constatação de que o escritor se desnudou sem reservas. E não podia ser diferente, pois para ele, a obra só se justifica se for extraída do âmago, (ou como ele diz, da parte obscura) do escritor.
E, no “Em busca...” há, é claro, a estória em si. Esta me aturdiu, nos lances das súbitas revelações. Mas, simultaneamente, me gratificou, na constatação de que o escritor se desnudou sem reservas. E não podia ser diferente, pois para ele, a obra só se justifica se for extraída do âmago, (ou como ele diz, da parte obscura) do escritor.
“Aquilo que já foi dito não nos pertence”.
Há quem acredite que o Em busca... não seja um livro autobiográfico e, consequentemente, o Marcel da estória não seria o próprio autor. Não compartilho esta opinião. Para mim é o mais autobiográfico dos livros, embora admita que alguns dos personagens possam representar 'colagens' de pessoas que o escritor conheceu.
É sabido que o barão de Chalus, por exemplo, foi inspirado no conde/escritor Robert de Motesquiou.
Diz-se, também, que Charles Swann, foi o homem de sociedade (judeu rico e culto) Charles Haas.
A outra questão que suscita incerteza é a que diz respeito à opção sexual de Proust. Para mim não há dúvida de que ele era homossexual. A inferência imediata disso é que os seus amores, descritos no livro, não eram mulheres. Albertine pode muito bem ter sido um "Alberto". E as amigas de Albertine todas seriam também homens. Não é difícil deduzir isto, a partir das características que o escritor atribui a cada uma delas.
O Em busca... porém, transcende, em muito a questão da homossexualidade (ainda que este seja o tema, digamos, subjacente, da obra).
Sobre a fonte de inspiração para que se escreva uma obra-prima, Proust disse:
“... para escrever esse livro essencial, o único verdadeiro, um grande escritor não precisa, no sentido corrente da palavra, inventá-lo, pois já existe em cada um de nós, e sim traduzi-lo. O dever e a tarefa do escritor são as do tradutor.”
Eis, Marcel Proust!