segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dirce de A.Cavalcanti e a tragédia de Euclides da Cunha



(Nota: O texto abaixo revela o enredo do Livro O Pai, de Dirce de Assis Cavalcanti)


Acabei de ler um livro que me chegou às mãos casualmente. Trata-se de O Pai, de Dirce de Assis Cavalcanti. Esse livro se encontrava entre outros, arrematado recentemente por F, numa garage sale. Examinando os títulos das obras, observei serem livros espíritas, e os encaxotei para doação. Entre eles, no entanto, havia esse O Pai, um livro autobiográfico.

Muito me surpreendi com o teor do livro, e sobretudo com o talento literário da autora. Ela vem a ser, imaginem só, filha do militar Dilermando de Assis, o homem que matou o escritor Euclides da Cunha.

Narrando sua estória, Dirce de A. Cavalcanti nos expõe a tragédia em que seu pai esteve envolvido, e a forma como isso o afetou posteriormente, bem como à nova família constituída por ele. Ela nasceu de um casamento contraído por Dilermando de Assis, depois que ele se separou de Ana, ex-mulher de Euclides da cunha, e pivô da desgraça que sobreveio aos dois homens.

Tencionando ingenuamente poupar a menina, Dilermando e a mãe dela se calaram sobre os fatos concernentes ao passado dele, uma vez que ele fora absolvido do crime em que esteve envolvido. A menina, porém, acaba por descobrir (através de uma coleguinha de escola, e da pior forma possível), os eventos ocorridos na juventude de seu pai. E a estória de Dilermando nos prova, mais uma vez, que a vida é, e sempre será, mais complexa e surpreendente que qualquer obra de ficção.

Dilermando de Assis conheceu Ana da Cunha, quando ele tinha dezessete anos, por ser ela, então, vizinha e amiga de suas tias. Recém-ingresso na vida militar, ele era um rapagão alto, loiro, de olhos azuis, campeão nacional de esgrima, de salto em vara e tiro ao alvo. Pouco depois de conhecê-la, Dilermando, as tias e Ana, se tornam vizinhos num edifício em que a proprietária, madame Monat, alugava apartamentos para famílias. E aí é que a 'coisa' entre eles se inicia pois Ana, no vigor dos trinta e poucos anos, passava longos períodos sozinha (com o filho dela com Euclides), enquanto seu marido famoso se ausentava, às voltas com suas viagens e pesquisas.

Ana e Dilermando se apaixonam ela engravida, quer se separar de Euclides mas esse não lhe concede a separação. O bebê gerado por Ana e Dilermando morre com poucos dias de nascido (mais tarde ela diria que o marido o afastou dela, impedindo-a de amamentá-lo). O casal de amantes, no entanto, a despeito das adversidades que se interpõem entre eles (a furiosa oposição do marido dela; a transferência dele para uma escola militar no Sul, etc.), continua se encontrando e ela dá à luz a outro filho de Dilermando. Euclides registra a criança como seu filho, no intento, talvez, de por um fim definitivo, na relação extra-conjugal da mulher. O casamento dos dois, porém, se tornara impossível e, depois de conflitos e discussões terríveis, ela deixa a casa do marido, com os dois filhos - o dele e o do amante - e vai morar com esse, na casinha em que ele estava residindo com o irmão. Euclides descobre o endereço da casa e irrompe no local disposto a matar ou morrer. Ali ele é atendido à porta pelo irmão do jovem militar, em quem atira (o rapaz sobrevive mas, tornando-se inválido, comete o suicídio poucos anos depois). Dilermando também é alvejado (várias vezes) e, para se defender, dá dois tiros em Euclides, um deles, fatal.
Posteriormente a viúva se casa com o jovem amante e tem outros filhos com ele, mas, alguns anos depois, o filho que ela tivera com Euclides procura vingar a morte do pai, disparando um tiro - pelas costas - no novo marido de sua mãe. Esse, que se encontrava na ocasião, num cartório, no Rio de Janeiro, reage e mata também o seu agressor. Segue-se a isso, a separação do casal.
Passado alguns anos, Dilermando se junta à mãe de Dirce, a autora do livro a que ora nos referimos. E escreve também a sua versão dos fatos, narrada na obra A tragédia da Piedade. Euclides da Cunha, não é preciso dizê-lo, é o autor de Os Sertões tido como um dos maiores livros já escritos por um brasileiro.

19 comentários:

  1. m,uita boa historia e apropriada para pesquizas

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  2. uma história forte, trágica, penso que faltou um pouco de razão por parte de Ana, acreditou demais na paixão

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  3. Trágica história verdadeira, ainda mais no inicio do século XX onde os costumes eram outros e traição "lavava-se com sangue", mesmo que o casamento não tivesse dado certo, como no caso de Euclides da Cunha e Ana de Assis. Parece que tudo conspirou para chegar nesta tragédia. Não há inocentes e culpados nesta história.....somente vítimas. Nenhum dos personagens conseguiu ter uma vida feliz.

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  5. Todos os envovidos forão tão infelises,quanta amargura carregarão por toda a vida muito sofrida,foi um preço muitíssimo alto para eles e seus filhos.

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  6. Conheci Dirce quando era mulher do embaixador brasileiro no Mexico. É uma artista plástica de sucesso e escritora de talento. Na verdade é uma mulher fantástica que marcou a minha vida porque me incentivou e inspirou, hoje tb sou artista plástica. Ela mora no Rio de Janeiro, com o marido que tb é escritor. Esse livro dela, "O Pai" é emocionante. Ela me deu de presente em Bruxelas, quando fui visitá-la. Li tudo de uma vez só no avião, voltando para Nova Jersey onde morávamos na época. Muitos anos mais tarde li um manuscrito que ela escreveu sobre uma experiência na China antes de Nixon quebrar a cortina de ferro que impedia estrangeiros de entrar lá. Que eu saiba o livro ainda não foi publicado. Ela é uma mulher para ser admirada, amada e celebrada.

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  7. Anônimo,

    Eu também gostei muito do livro e lamentei que a escritora não tivesse produzido mais, pois ela sem dúvida tem talento!

    Um abraço e obrigada pela colaboração!

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  8. Só resaltando q Anna de Assis, separa-se do marido após descobrir a traição dele com a mãe da autora em questão.
    Anna de Assis uma mulher q viveu um grande amor com Dilermano q assusta até as nós mulheres atuais. Foi muito amada pelo segundo marido um amor tão intenso q ñ cabia a rotina normais em casamentos q duram dezoito anos como o deles.
    Ela ñ queria amor em migalhas,Ela tinha tido um "banquete". Resalto tb q no leito de morte Dilermano chama por Anna de Assis,mesmo após 14 anos separados.

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    1. Bem observado, Regina. Não sei se o resumo da obra no Blog quis camuflar a traição de Dilermando comum entre os homens, principalmente pela diferença de idade do casal. A separação não ocorreu após a morte de Quindinho, uma vez que o militar ficou preso aguardando julgamento e tiveram filhos após o fato. Ocorreu e sim devido à Ana descobrir o adultério.

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  9. Essa história é mais emocionante que um conto de fadas. Se tivesse acontecido nos Estados Unidos seria mundialmente conhecida através do cinema,Holyood, tanto quanto a morte de Kennedy, teria ganho Oscar e mais Oscar. No entanto, já que não aconteceu por lá, aconteceu foi aqui no Brasil, devemos divulgar o máximo que se puder, e não se trata de difamar as famílias envolvidas. De maneira nenhuma. Todos os descendentes, acho que a maioria já compreendeu, que esse romance trágico aconteceu naturalmente, ou seja, as vidas perdidas ali, outras sacrificadas, não se deram por conta da maldade de um ou de outro. Mas foi fruto da emoção de momento. Assim como Anna e Dilermando se apaixonaram, da mesma forma o marido traído teve a reação espontnea de atirar no rival, que por sua vez revidou. Claro que na época desses assasinatos as famílias envolvidas tinham motivos para se odiarem, hoje, porém, esses descendente, apesar de existirem, é tudo anonimo, não há um escritor como Euclides, não há um atirador de elite como Dilermando. Portanto essa história em si está encerrada, entretanto a sua divulgação é patrimõnio do povo brasileiro. Aqueles personagens, como Dinorah, Sólon, Anna, o "espiga de milho" etc estão guardadados na imaginação do povo brasileiro. Trata-se de uma história, cujos capítulos foram escritos por si próprios. Pois conto para minhas filhas, e por último tenho contado para meu neto. Filhas e neto se emocionaram. E viva os contos de fada.

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  10. Acabei de ler o livro O Pai, gostei muito do livro, pois já havia lido A Tragedia da Piedade e Ana de Assis: Historia de Um Trágico Amor. Muitos culpam só Dilermando pela tragedia e o condenam muito, mas lendo todos esses livros, acho que Euclides da Cunha poderia ter evitado tudo isso na época se tivesse aceitado separação com Ana de Assis. Gostaria muito de saber o que aconteceu com os outros filhos de Dilermando com Ana, se tem algum vivo ainda, sei que a Judith já é ´falecida. Gostaria de saber também que ano faleceu a mãe de Dirce de Assis. Eu moro em Piraí do Sul no paraná, a 30 KM de Castro, onde a Dirce nasceu e servi no quartel do Exercito onde o pai dela foi comandante, gostaria que ela me respondesse se puder, que ano o Dilermando veio para Castro e que ano foi embora, se ela lembra o nome da rua que ela morou em Castro. Acho que deveriam fazer um filme sobre a historia da vida de Dilermando de Assis, no Brasil fazem tantos filmes sobre alguns personagens históricos, porque não fazerem sobre A Tragedia da Piedade, mas não com sensacionalismo mas sim como tudo aconteceu de fato, desde o inicio focando a vida dos personagens desde suas infâncias, tenho certeza que seria um sucesso e também muito esclarecedor para muitos que ainda prejulgam os envolvidos, principalmente ANA e DILERMANDO.

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  11. A história de Euclides sempre foi fascinante;não pela tragédia em sí, mais por todos os elementos que compõe essa historia; solidão, brigas, paixão desenfreada, viagens exautivas, filhos fora do casamentos, tragédias...Para o início do século, devia ser terrível para um escritor famoso e membro da academia brasileira de letras,ver-se envolto á humilhações decorrentes de traições, fofocas pelos cantos, comentários sobre seu casamento destruído...Como deveria ser de praxe, matar o amante era uma questão de honra, como se isso fosse aliviar a sua dor e resolver todos os seus problemas; Por outro lado fica pelo menos pra mim o comentário do grande escritor da época Monteiro Lobato em que palavras traduzidas para os dias atuas disse " Se alguém invadir a minha casa com uma arma em punho tentando contra a minha vida; seu eu puder mata-lo, eu o farei." É complicado julgar essa tragédia observando os dois personagens principais, pois se dermos razão para os dois; um por tentar matar por ser traído e ver sua familia desmoronar e o outro por matar simplesmente para não morrer. é complicado...

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  12. Uma história trágica e ao mesmo tempo emocionante pela paixão. Vitimas principalmente de uma época, de uma sociedade que os condenou. Ainda hoje há tantos preconceitos mas já há famílias múltiplas em que todos se dão bem. Tristes esses conceitos de que marido pode ser grosso e fazer o que quiser com a esposa, negar a separação, matar um bebe de fome por ciúme ou vergonha, de que a diferença de idade era impedimento para o amor. Euclides também é vítima, não de de Anna ou Dilermano, mas de uma sociedade que o moldou como esse tipo de marido, que lhe deu essa "vergonha" pela separação e que o vitimou tentando alvejar quem era campeão em tiro.

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  13. Cheguei a ler partes do livro, em 1990: quando um dos meus pais o adquiriu... Uma história chocante mesmo! Foi na época do seriado DESEJO*.
    A forte DIRCE DE ASSIS C. merecia até uma prêmio - e que bom que alguém aqui a conhece; gostaria até de me comunicar com ela.
    O caso do EUCLIDES DA CUNHA foi um dos mais pesados (e polêmicos) que houve no país/ainda mais em tal época.
    Conheço uma pessoa (um pouco mais velha que eu) que parece ser descendente da ANNA DE ASSIS (amigo de um primo meu_minha mãe dizia que era neto desta).
    Até conhecia a rua onde ela residia, na GÁVEA: RJ. Além da casa.
    Uma vez a filha desta (chamada JUDITH) esteve no SEM CENSURA e me contaram que ela era bastante rude (ficam remoendo o assunto... quem tem a ver com quem causa isso tudo tem o direito a nao gostar!).
    * Um seriado até controverso... só que com um cenário bonito mesmo (impossível esquecer da atuação da MARIA MARIANA numa das cenas finais!).

    Rodrigo (Porto Alegre)

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  14. Triste historia quem sofreu mais foram os filhos de Euclides que apos a morte do pai se dissolveram. Nao condeno a Ana so sinto pelos filhos. O último deles Manoel Afonso morreu cedo com 32 anos de idade. E a Ana se recusou a ir no enterro do filho. Ele a perdou nao tinha magoas. Mas ela alem de estourar o dinheiro do filho com relacao a heranca e os direitos autorais se achou vitima. Nao tinha amor aos filhos seus com Euclides talvez porque eles eram acaboclados e ela queria filhos com características europeias.

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  15. Triste historia quem sofreu mais foram os filhos de Euclides que apos a morte do pai se dissolveram. Nao condeno a Ana so sinto pelos filhos. O último deles Manoel Afonso morreu cedo com 32 anos de idade. E a Ana se recusou a ir no enterro do filho. Ele a perdou nao tinha magoas. Mas ela alem de estourar o dinheiro do filho com relacao a heranca e os direitos autorais se achou vitima. Nao tinha amor aos filhos seus com Euclides talvez porque eles eram acaboclados e ela queria filhos com características europeias.

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  17. "Euclides da Cunha, o escritor que 'descobriu o Brasil que os brasileiros não conheciam'

    Tenho verdadeiro facínio sobre este tragédia. Tenho os vídeos da Mini Série, todos os livros que foram editados, inclusive os livros de Dilermando, tirei cópias de todos os jornais da época, tenho fotos de todos os envolvidos, inclusive um resumo da vida dos pais de Euclides e Ana.

    Tenho os textos da acusação que ficou a cargo do promotor público Pio Duarte e a brilhante devesa do Dr. Evaristo de Moraes.

    Nesta Tragédia da Piedade; tanto Euclides, quanto Ana e Dilermando são ao mesmo tempo culpados e inocentes.

    As verdadeiras vítimas inocentes foram Solon, Quidinho, Alquimena Ribeiro e Dinorá de Assis, estes sim foram as vítimas esquecidas desta tragédia.

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